Editorial: os livres descendentes da escrava Rosália

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Há pouco mais de 10 anos chegou às minhas mãos uma carta / bilhete que meu bisavô Antônio enviou para meu avô Jayr {pai do meu pai}. A primeira coisa que chamou a atenção foi a semelhança nas letras de pai e filho. A segunda foi o carinho e atenção entre eles – dois homens criados à moda antiga, mas que demonstravam afeto. Vô Antônio perguntava pelos netos, a vida do filho.
Antônio era filho de Rosária, que provavelmente não sabia ler. Foi ESCRAVA, SENZALAS, SOFRIMENTO, LEI ÁUREA. O filho da Rosária sabia escrever, possivelmente ela não teve a mesma sorte pós Lei Áurea.
Vamos além. O neto da Rosária, Jayr, foi o homem que mais escreveu que eu conheci. Nesses anos todos apaixonada por palavras, nunca vi alguém tão apaixonado pelas letras. Por escrever. Sempre à mão. Geralmente de madrugada, sob uma luminária, enquanto a esposa dormia. Homem de opiniões firmes, Jayr priorizava escrever sobre a Bíblia.
Um neto de escrava protestante? Cai mais um pré-conceito. Nem todos os escravos e descendentes eram católicos convertidos a força ou adeptos de religões afros.
A questão religiosa era tão forte que Antônio, filho da escrava Rosária, demorou muito a aceitar o casamento de seus três filhos homens com três filhas de um árabe católico. Os mais velhos, meu vô Jayr e minha vó Antonieta, viveram uma verdadeira novela: casaram-se no civil e demoraram a receber as bênçãos religiosas. O pai de Tieta era católico a ponto de ter construído uma igreja para uma santa padroeira no bairro de zona rural onde moravam. A teimosia do amor venceu, e aconteceram as uniões dos três netos de escrava, protestantes, e pescadores, com as três irmãs árabes: formamos uma verdadeira nação.
Entre os filhos de Jayr e Antonieta, duas professoras e um inquieto pastor – teólogo / psicólogo / pedagogo. Uma dessas filhas professoras se associou ao irmão inquieto e juntos montaram um colégio: Centro Educacional Jair da Silva.
Sim, “Jair da Silva”, nome mais descendente de escravos não há.
Os bisnetos da escrava Rosálra montaram um colégio: educação gera liberdade, pensamento, curiosidade. É o contrário de escravidão, senzala, restrição total da liberdade.
O filho inquieto do Jayr da Silva {demoramos décadas a saber que seu nome era com Y} é meu pai, Josias César. Meu pai tem as atribuições acadêmicas e profissionais que já citei. É leitor voraz. Escritor. Tem o poder da palavra. É pastor evangélico. Uma de suas filhas, essa que vos escreve, é jornalista: apaixonada pela palavra, pela arte, pela liberdade de pensamento.
Se Rosária viveu escravizada em uma fazenda, seu neto Jayr viajou pelo mundo. Seu bisneto Josias e seus muitos tataranetos, entre os quais me incluo, também.
Sem falar nos outros ramos da família, filhos de Antônio: Milton, Silas, e Lucinda. Entre nós todas as profissões. Muitos professores. O mundo tem sido pequeno.
NÓS SOMOS LIVRES!
A Escravidão não está só nos livros de História. Ela é real. Faz parte da minha História recente.
Essa é uma parte da minha família. Eu, Lathife Cordeiro DA SILVA.
Com muito orgulho.
Até a próxima,
2016-05-13T19:52:00+00:00 0 Comentários

Sobre o Autor:

Lathife Porto
Meu nome é Lathife Porto, tenho 34 anos, sou jornalista, assessora de imprensa, e apaixonada por arte e cultura. Moro no Rio de Janeiro, estou sempre em Paraty {RJ}, mas você pode me encontrar em qualquer lugar do mundo – principalmente no mundo virtual.

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